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Reconhecer os propósitos - Artes Marciais.

flor saindo do asfalto cumprindo seu propósito
Por que você treina?
Acredite, enquanto você não for capaz de responder a essa pergunta com absoluta honestidade, seu desenvolvimento será superficial.
Você poderá experimentar o reconhecimento alheio e a satisfação pessoal, poderá alcançar os mais elevados níveis de graduação e prestígio, será bem considerado e respeitado, servirá de inspiração e muitos irão ao seu encontro em busca de orientação, mas tudo será tão frágil quanto um castelo de areia na praia.

Veja bem, as razões que te levaram até o dojo pela primeira vez não importam muito agora. Nós todos precisamos nos conectar com algum tipo de filosofia para que alcancemos o lugar-comum que é o entendimento de nós mesmos. Mas as razões que te fazem seguir o caminho escolhido são fundamentais para que os resultados sejam suficientes para gerar conforto e desenvolvimento.
Quando você compreende os motivos da sua decisão, toda experiência agirá como combustível para sua continuidade e cada consequência irá oferecer um tipo único e aproveitável de entendimento. Isso irá automaticamente gerar em você a capacidade de acreditar no que está fazendo e principalmente, que os resultados são necessários para a conquista dos seus objetivos. A palavra mais adequada para resumir este conceito é "fé". (Por favor, não se limite a traduzir fé como uma palavra estritamente religiosa.)
Soren Kierkegaard, um dos primeiros filósofos existencialistas, articulou o conceito de "salto da fé" que significa a ruptura entre um estado de profunda apreensão e um estado de entrega absoluta. 

Dentro da prática de artes marciais, o salto da fé representa o momento exato de nossa transcendência.
Quando você honestamente é capaz de reconhecer as razões que te fazem insistir na jornada de treinamento, cada consequência do processo te engrandece e te alimenta. Ao mesmo tempo, quando você acredita no que está fazendo e sente-se respaldado pelos frutos da sua escolha, tudo aquilo que te causa contrariedade serve para te indicar as mudanças necessárias. Mas quando ainda não atingimos o estado de Fudoshin e erroneamente atribuímos polaridades às consequências, estamos sofrendo as influências de nosso ego e nos afastando dos resultados do nosso esforço.
Treinar uma arte marcial não é como jogar dominó aos domingos numa praça. Vai doer, vai ser cansativo, vai ser frustrante, vai te fazer encarar certos conceitos e crenças e principalmente, vai te fazer ver suas próprias deficiências de forma escancarada. Mas entenda que enquanto essas consequências negativas te causarem algum tipo de sensação ruim, você estará se afastando do resultado real da prática, pois você estará equacionando prós e contras em uma equação que não se interessa por seus objetivos. 

A dor não é um reflexo da força de um golpe, mas uma realidade da sua fraqueza física.
Os pontos que o seu ego considera negativos não são uma deficiência da prática, mas sim uma deficiência sua. E isso é facilmente comprovado quando você avalia os resultados da constância. Talvez o seu primeiro treino tenha sido exaustivo, mas depois de um tempo seu condicionamento fica melhor e você termina o treino com energia de sobra. Da mesma forma, um golpe que dói hoje, dói menos amanhã e assim por diante.
No entanto, nós somos muito bons em guardar as consequências negativas em maior intensidade do que as positivas e fazemos julgamentos quase sempre injustos sobre os reflexos da nossa escolha por sermos vitimistas o tempo todo. É muito comum que deixemos de lado todos os ganhos e valorizemos as perdas para justificar nossa falta de empenho, mas isso demonstra apenas nossa falta de entendimento sobre nossos próprios objetivos. 

Quando você desiste para evitar a dor, você certamente não irá sentir a dor, mas isso não significa que você ficou mais forte! 

Por isso é tão importante ser capaz de compreender seus próprios motivos para insistir na jornada, pois essa é a única forma de realizar eventualmente o salto da fé que irá te permitir a transcendência.
A partir do momento que você for capaz de compreender que tudo aquilo que te atinge de forma negativa serve para te mostrar caminhos para algo positivo, tudo que te acontecer será absolutamente importante e proveitoso. E isso, meus caros, é Fudoshin.

Apesar de ficarmos muito tempo acreditando que devemos viver pela inércia do que nos acontece enquanto alimentamos um complexo futuro absolutamente desconhecido, deixar que os propósitos de nossas vidas sejam simplesmente resultados do que fazemos sem muita consciência é o mesmo que se entregar ao acaso. Entender os motivos que nos inspiram decisões é algo que nos permite colaborar com a concretização de interesses que decidimos conquistar. Saber dos objetivos, compreender os motivos e trabalhar para que sejam atuantes no que fazemos é o que nos possibilita definir o que queremos. Isso significa atribuir propósito à jornada. E o que dá sentido à jornada é a capacidade de insistir nela.

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